13

Fev

Os objetos inteligentes e o fim da internet como a conhecemos

O futuro da internet é móvel. E, além dos celulares e tablets, as conexões virão dos mais variados objetos. Geladeira, tênis, lâmpada, carro: em breve todos estarão conectados, emitindo e recebendo dados. Os chamados objetos inteligentes já são realidade e sua crescente popularização joga ainda mais lenha na discussão sobre neutralidade da internet, o princípio que garante o livre acesso a qualquer tipo de informação na rede.

Quando em 2010 Chris Anderson decretou na capa da Wired o fim da web, a interface gráfica que estamos acostumados a usar para acessar a internet, muita gente tomou um susto. Mais de três anos depois, a proliferação de smartphones, TVs com conexão e o mundo dos aplicativos mostram que os apps chegaram para ficar e que um possível fim da web pode estar mais próximo do que se imagina. Seria ok se o substituto não fosse um modelo centralizador, que coloca os interesses econômicos no centro do processo e pouco se importa com a pluralidade e diversidade de conteúdos.

A web nasce baseada na horizontalidade, tem natureza flexível, trabalha com os conceitos de relevância e abertura. Por isso, conseguimos acesso fácil a tanto conteúdo que as indústrias instituídas acham pouco relevante. É assim que um blog de um anônimo passa fácil a audiência de um canal de grande jornal.

No mundo dos aplicativos, a lógica é outra. Em vez de buscar conexões o usuário é incentivado a permanecer no feudo digital criado pela marca. Some isso à possibilidade de oferecer conteúdos com velocidades distintas que você tem uma noção do rumo que a internet está tomando.

E tem muito mais por vir. A indústria automobilística deve ser a primeira a incorporar as aplicações de maneira mais profunda. Sabe a relação que você tem com o seu celular? Então, é mais ou menos assim que serão os carros: cheio de aplicativos, com possibilidade de customização e sistema operacional. Prepara-se para ter que escolher entre um modelo Apple ou Google.

Parece uma maravilha, se não fosse a possibilidade de isso significar o consumidor como “refém” de uma única marca. Pensando nisso, algumas empresas já se uniram, atendendo um chamado da Fundação Linux, para criar um padrão aberto que interligue as conexões das diversas aplicações de IoT (Internet of Things, a Internet das Coisas), os tais objetos inteligentes. A AllSeen Alliance conta com empresas como Cisco, D-Link, Haier, LG Electronics, Qualcomm, Panasonic e Sharp e pretende criar protocolos e padrões abertos, garantindo a capacidade dos sistemas das empresas em se comunicar. Tem uma luz no fim do túnel!

» Em tempo, no Brasil o princípio da neutralidade de rede está inserido no Marco Civil da Internet, projeto de lei construído de maneira colaborativa em 2009, que aguarda votação na Câmara dos Deputados.

Post publicado originalmente no Brasil Post, versão brasileira do Huffington Post, em 29 de janeiro de 2014: http://www.brasilpost.com.br/gabriela-agustini/os-objetos-inteligentes-e_b_4690628.html

04

maio

Revolução digital e o mundo do trabalho

Há anos os pensadores focados em redesenhar a vida contemporânea alertam que o modelo atual sob o qual a sociedade está estruturada chegou ao seu limite. Quando o arquiteto e professor do MIT William Mitchell escreveu seu E-topia, em 2000, os espaços de coworking (espaços coletivos de trabalho) ainda eram incipientes e acessíveis apenas aos que trabalhavam diretamente com tecnologia da informação. 

Pouco mais de uma década depois, trabalhar em qualquer espaço com internet banda larga é não só uma realidade crescente, como também a forma de reduzir problemas urbanos, de criar uma vida alicerçada em valores mais humanos e, principalmente, de viabilizar uma série de novos negócios e processos.

Novas empresas crescem e se consolidam em ambientes coletivos. E aí vale ressaltar não apenas o baixo custo, que permite a existência de muitos serviços por aí, como também o ambiente de troca e colaboração, característicos desses espaços. A multidisciplinaridade permite que produtos, serviços e processos sejam criados para lidar com (e, quem sabe, resolver) problemas contemporâneos de forma mais abrangente e efetiva.

A Casa da Cultura Digital, iniciativa da qual participei desde os meses de formação em meados de 2009, em São Paulo, é um bom exemplo disso. Ao juntar desenvolvedores, comunicadores, artistas, hackers, pesquisadores de diversas áreas em um mesmo espaço criou-se uma atmosfera bastante produtiva para pensar (e lidar) com as questões contemporâneas. O impacto causado pelo digital na sociedade (e as oportunidades trazidas pelas novas (e velhas) ferramentas na construção de uma sociedade mais justa) orientou muitas das ações criadas na Casa, que de um espaço partilhado de trabalho passou a ser uma rede de pessoas, projetos e ideias ligados ao universo digital. 

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Esta semana, estive a convite do CEAT (Centro de Atendimento ao Trabalhador) no Seminário Internacional Agenda Social do Trabalho. Participei da mesa sobre “Tecnologia, empreendedorismo e inovação”, ao lado do Juliano Seabra, da Endeavor, e do ex-Ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Veloso

Ao mostrar exemplos como o da Casa da Cultura Digital e do menino Jack Andraka, que aos 16 anos construiu um revolucionário teste para diagnóstico de câncer no pâncreas a partir de pesquisas na internet, ajuda recebida em fóruns online e materiais caseiros, procurei evidenciar o como salas, quartos, garagens e cafés pelo mundo viraram potentes laboratórios de inovação. 

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Basicamente, um computador conectado a uma internet banda larga é capaz de impulsionar a criação de produtos, serviços e processos que mudam rapidamente a forma como nos relacionamos. Google, Facebook, Yahoo, dentre tantas outras empresas de internet, são exemplos claros disso.

 O acesso à informação em uma escala antes impensável e a possibilidade de nos conectar (e trabalhar à distância em conjunto) com pessoas em diversas partes do planeta permite que as ideias se concretizem de forma mais rápida. E que a criatividade, de fato, possa agir. 

A oficina de visualização de dados em massinha de modelar, feita pelo pessoal do Ônibus Hacker, é um exemplo do que acontece quando você tira da frente as “caixinhas” que separam a política, da arte, da comunicação, da diversão, da educação (entre tantas outras). No vídeo abaixo, o resultado de uma visualização feita pela Daniela Silva e Bruno Fernandes sobre os planetas e o sistema solar,  durante o  International Space Apps Chalenge

Size of Earth from bruno fernandes on Vimeo.

"Com dados sobre o tamanho dos planetas do sistema solar e do Sol, os três mostram, usando apenas massinha de modelar, um cadarço e uma câmera, como a Terra é pequena em relação à maioria dos demais. Dessas coisas que deixam claro que uma boa visualização de dados, como a deles, é melhor do que qualquer outro instrumento para dar determinadas dimensões.", como compilou matéria sobre a ação publicada no Estadão

Expansão dos “Coworking Spaces” pelo país

Recente pesquisa divulgada pela DeskWanted compilou dados sobre a expansão dos escritórios de trabalho partilhados pelo mundo. Segundo o relatório, durante o ano de 2012 cerca de 4,5 novos espaços de coworking surgem a cada dia útil. E esse número ainda deve crescer muito.

Já são muitas as iniciativas voltadas a mapear “espaços de trabalho” nas cidades e a conectá-los aos trabalhadores interessados. Além da DeskWanted, DeskSurfing, LiquidSpace, TouchDown Space, Coworkify, OpenDesks, AllDesk são algumas das iniciativas em ação.

No Brasil, o Coworking Brasil e a Movebla são sites que compilam, respectivamente, informações sobre os espaços comerciais em atividade no país e notícias relacionadas a esse universo. 

07

Mar

Impressão 3D e a revolução nos meios de produção

2012 foi marcado pela chegada no Brasil de serviços comerciais ligados a impressoras 3D de baixo custo. MetaMáquina, Imprima 3D/Robtec são algumas das empresas que surgiram ou passaram a atuar no setor e vêm aprimorando seus serviços com a mesma velocidade na qual eles são difundidos.

A Folha fez uma matéria no mês passado sobre a popularização das impressoras 3D, que mostra o impacto desse avanço. A fabricação de protótipos mais baratos, beneficiando pequenas indústrias e inventores, e a integração a processos produtivos complexos como, por exemplo, para fazer protótipo de peças-piloto de avião são alguns dos pontos destacados.

No vídeo abaixo, os sócios da MetaMáquina, empresa que construiu a primeira impressora 3D caseira no Brasil a partir de um aporte conseguido via financiamento coletivo no Catarse, falam mais sobre a máquina.

Com menos de um ano de empresa, a MetaMáquina já lançou uma nova impressora, quatro vezes mais rápida e com maior precisão (e muito mais bonita): 

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Anúncio da nova impressora à venda por 3.700 reais.

Constantemente me perguntam por que essas impressoras são tão revolucionárias e por que tanta euforia em torno da impressão 3D? Pode ser legal imprimir um boneco de plástico, um chaveiro, um apito, mas… e daí?

A impressão 3D desmaterializa os objetos, transformando-os em informação, assim como a Internet desmaterializou os livros e os discos. 

"Ao reduzir a importância da economia de escala na oferta de bens materiais, eles estimulam que sejam feitos produtos específicos, adaptados a necessidades concretas dos usuários e que podem ser desenhados por qualquer um que tenha talento para tanto. O poder individual do consumidor aumenta de forma impressionante, pois ele não tem que se adaptar ao que lhe é oferecido de antemão, mas pode ser protagonista da oferta e mesmo da produção do que deseja." Explica o professor da Universidade de São Paulo Ricardo Abramovay, em artigo "O Movimento dos Fazedores e o Espírito do Faça Você Mesmo”, publicado na Folha de S. Paulo no final de 2012.

Seguindo a mesma linha, o também professor da USP Luli Radfahrer em apresentação no último Intercon destacou as impressoras como “a caixa de pandora, a invenção mais brilhante de todos os tempos”. Luli antecipa aquilo que já está em discussão nos EUA e Europa: o uso de impressora 3D para imprimir roupa, sapato, comida…

(A fala do Luli sobre as impressoras 3D começa no 24:23. E vale assistir a palestra “Biohacking e Transhumanismo: inteira)

Ainda em fase de estudo e protótipo, impressoras 3D focadas em alimentos já estão circulando por aí (por ora, ainda em versão super experimental). Matéria no The Gardian publicada ano passado discutiu, inclusive, se carnes artificiais feitas em impressoras 3D não seriam possíveis aliados na redução do impacto ambiental. 

"Apesar de ainda não à venda, os primeiros modelos de impressoras 3D de alimentos já foram feitas. Elas ainda são muito primitivas - por exemplo, fazem chocolate em formas personalizadas. Mas, como impressoras 3D, em geral, tornam-se cada mais sofisticadas, menores e mais baratas, é inevitável que em algum momento uma impressora de alimentos 3D será tão onipresente quanto um forno de microondas." Traduzido do 3dfoodprinter.

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Outros exemplos de experimentos nesta linha são encontrados na matéria: http://news.cnet.com/8301-11386_3-57493377-76/3d-printed-meat-its-whats-for-dinner/

Experimentos com impressora 3D estão sendo feitos em todos os cantos ligados à produção dos mais diversos tipos de objetos. Aquilo que era papo de filme futurista já virou realidade…

Para ficar de olho nas pesquisas em desenvolvimento, recomendo o site:  http://www.3ders.org/. Aproveite e leia também: 10 coisas para se fazer com uma impressora 3D

 

18

Fev

Open Source Fashion: a lógica do software livre aplicada à moda

Em 2010, participei de uma iniciativa idealizada por Filipe Moura, atual MetaMáquina, que tinha a intenção de levar a lógica do software livre para a produção de moda. O projeto não foi ao ar (ainda!), mas serviu para que tomássemos conhecimento de uma série de ações digitais feitas no mundo com o mesmo objetivo: o de levar a colaboração para a produção de roupas e acessórios.

Na época, a rede social de troca de referências sobre o assunto Polyvore era recém lançada e a sensação do momento nos EUA. Assim, como o LookBook.Nu, a rede que compila desde 2008 looks de fashionistas de todas as partes do mundo. O que fazia nossos olhos brilharem eram as iniciativas focadas na abertura da produção, que após muita pesquisa encontramos. Pamoyo, Open Source Jewerly são alguns desses projetos que ainda estão no ar (a maior parte não durou esses anos todos).

O Open Wear é o que mais se aproxima conceitualmente do que gostaríamos de ter feito, assim como o discurso de Susan Spencer (compilado em vídeo logo abaixo).

Openwear E-book Final by Bertram Niessen

Não consegui descobrir se o software de Susan vingou (aliás, alguém aí sabe?) ou se temos algo nessa lógica P2P dando certo em alguma parte do mundo.

De qualquer forma, fiquei muito feliz em descobrir esta semana dois projetos de crowdsourcing& moda: o Cut on Your Bias e o ZaoZao, uma espécie de plataforma de crowdfunding de Hong Kong focada em peças de roupa, lançada em 2012.

Cut on Your Bias Introduction from Louis Monoyudis on Vimeo.

Iniciativas de crowdfunding e moda são anunciadas como tendência desde 2010, mas até hoje não sei de muitos exemplos. 

Alguém mais conhece iniciativas digitais de moda e colaboração? Algo que seja, de fato, P2P? Que proponha a criação em rede, coletiva?

Agradeço referências. Seguirei acompanhando….

14

Fev

Financiamento coletivo para capital inicial de empresas é possível no Brasil

A discussão sobre crowdfunding e equity está aquecida neste começo de ano. Primeiro, o tema ganhou destaque no Fórum Econômico de Davos, como mostra o vídeo com o representante do Congresso dos EUA Patrick McHenry. Depois, a plataforma CrowdCube recebeu autorização para operar por parte da FSA (Financial Services Authority), o órgão de regulação financeira do Reino Unido. E, agora, na semana anterior ao Carnaval, representante da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) mostrou que a prática é possível no Brasil para captação de até 2,4 milhões por ano.

Em apresentação feita em evento dedicado ao tema promovido pela Fecomercio em São Paulo, o chefe de gabinete da presidência da CVM, Gustavo Gonzalez, mostrou como o órgão avalia, no momento, a prática, concluindo que pequenas empresas estão dispensadas de registro, se não ultrapassado o valor estabelecido como teto, e a partir de envio de declaração à CVM. Ele contou ainda que não há necessidade de ser empresa S.A. e não é preciso intermediário como banco ou corretora para efetuar a operação.

A apresentação de Gustavo, junto à do economista Adolfo Melito, feita no mesmo evento, dá largada para o surgimento de uma série de plataformas digitais no país. Seguindo a tendência já vista em outros países da Europa e America do Norte. 

O uso de crowdfunding, a captação de recursos por meio de financiamento coletivo, movimentou no mundo 3 bilhões de dólares em 2012, o dobro do valor registrado no ano anterior, segundo estimativa divulgada pela revista Forbes. A perspectiva é de um crescimento ainda maior neste 2013, muito impulsionado pela multiplicação e sucesso desses sites focados em investimentos em empresas em estágio inicial.

A lógica das plataformas de equity-crowdfunding é a mesma na qual se baseiam os sites já conhecidos e assimilados pelo público há alguns anos, como KickstarterIndiegogo, e o brasileiro Catarse. Mas, enquanto nesses sites, as pessoas escolhem projetos para colaborar financeiramente em troca de contrapartidas pré-estabelecidas, que podem ser imateriais ou materiais, nas plataformas de equity-crowdfunding a lógica é a do investimento e retorno em dinheiro.

Pelo aporte em um projeto de documentário no Kickstarter, por exemplo, recebe-se o nome no crédito de agradecimento da obra ou até o próprio DVD do filme. Enquanto que pelo valor investido em uma empresa listada no Symbid, recebe-se divisão de lucros de acordo com o desempenho da iniciativa.

Abaixo, o vídeo da campanha de captação da Enviu, empresa holandesa focada no desenvolvimento de soluções ambientais e sociais para o mercado, que arrecadou 100 mil euros, de quase 400 investidores, em cotas de 20 a 10 mil euros no Symbid. 

Dentre os projetos da Enviu está uma pista de dança sustentável que usa a movimentação das pessoas para gerar energia; a criação de casas de baixo custo e menor impacto ambiental em países com déficit de moradia a partir de conceitos open source e, inclusive, uma plataforma de crowdfunding equity própria focada em desenvolvimento de startups preocupadas com redução de impacto ambiental e social no planeta. 

Já são muitos os negócios atuando nesse segmento. GrowVcEarlySharesEquityNetThe Funders ClubFundableSeedInvestCrowdFunder são alguns dos sites no ar, prontos para inspirar uma série de negócios que logo, logo veremos por aqui.

20

Dez

Retrospectiva 2012: a economia da colaboração

Os arranjos econômicos baseados na colaboração estiveram no centro das minhas atenções neste 2012. Na verdade, desde o final de 2011, quando fizemos o Festival Internacional CulturaDigital.Br, aqui no Rio de Janeiro, e escolhemos para a palestra de abertura o professor de Havard Yochai Benkler, já havia um prenúncio de que esse seria, para mim, o assunto do ano.

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Benkler é um dos mais importantes pesquisadores da produção colaborativa. Em seu último livro, O Pinguim e o Leviatã, ele aborda a riqueza contida nas redes de cooperação como a Wikipedia, as comunidades de software livre, as plataformas de compartilhamento de imagem, som, vídeos e conta como esse modelo triunfou em relação ao modo de produção das organizações hierárquicas e tradicionais, simbolizadas no livro pela figura do Leviatã.

Em sua participação no Festival, Benkler fez um retrospecto de como as estruturas de mercado mudaram nos últimos 30 anos e evidenciou a importância de colocar as relações humanas no centro dos processos (inclusive, no mundo dos negócios). “As pessoas se comportam diferente quando se sentem parte do time, do grupo”, disse ele.

(Abaixo, o vídeo com a palestra de Benkler, na íntegra. A fala começa no minuto 55, após a cerimônia de abertura do evento, que ocorreu no dia 2 dezembro de 2011, no Cine Odeon)

Abertura e Palestra Yochai Benkler - Festival CulturaDigitalbr 2011 from Festival CulturaDigital.Br on Vimeo.

Pode parecer óbvio para os que nasceram em meio a revolução digital, mas a noção, abordada por Benkler, de que “a sensação de pertencimento, o sentimento de que as negociações são feitas sobre base visível, clara e equânime, o prazer do convívio, o intercâmbio de ideias, a capacidade de ouvir e o poder de falar são atributos decisivos de realização humana e, ao mesmo tempo, estimulam melhores resultados nas organizações”, como bem resume o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP) Ricardo Abramovay, outro importante pesquisador do assunto, em artigo para o Valor Econômico sobre o livro de Benkler, é nova para grande parte dos setores corporativos. 

Este cenário é abordado em detalhes por Michel Bauwens, que também foi um dos palestrantes presentes no Festival de 2011, em estudo para a P2P Foundation entitulado Synthetic Overview of the Collaborative Economy — leitura obrigatória aos interessados no assunto e para os que querem entender um pouco mais sobre a economia da informação.

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Estão no estudo cases importantes como o Shopify, plataforma de criação de ecommerces, Brain Tree Payments,  plataforma que facilita pagamentos de qualquer parte do mundo via celular e internet, Zopa, rede social de empréstimo financeiro, Eggzy, rede social que conecta produtores rurais e consumidores em busca de alimentos frescos, Skillshare, site que permite o compartilhamento de habilidades para a co-aprendizagem, além de uma infinidade de exemplos nas mais diversas áreas. O que, basicamente, todas têm em comum é a inteligência coletiva no centro dos processos, a noção de que conhecimento de especialista nenhum é maior do que o conhecimento produzido em rede por uma série de pessoas. 

No livro "Muito Além da Economia Verde", do Ricardo Abramovay, lançado este ano na Rio+20 (e cuja leitura terminei ontem e recomendo fortemente!), fica bem clara a importância que a cooperação tem na transição para uma nova economia, na qual ética e respeito aos limites da sociedade e da natureza estejam no centro das decisões.

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"A sociedade da informação em rede apoia-se em uma revolução científica em que convergem comportamentos humanos cooperativos e formas inéditas de organização do Estado, dos negócios e da vida associativa. A cooperação direta, intencional, apoiada em normas sociais claras, embora nem por isso localistas ou provincianas, é o mais importante caminho para novas relações entre economia e ética". 

17

Dez

"Social product development platform": o case brasileiro

Meses atrás, meus olhos brilharam quando a Barbara Wolff Dick, sócia da Engage, empresa originalmente de Porto Alegre e especializada em plataformas para mobilização, contou que estava trabalhando em um projeto de criação coletiva de produtos. Uma espécie de Quirky brasileiro, mas com o foco em matérias-primas de menor impacto ambiental.

Empolgada com a ideia, me aproximei da iniciativa nos últimos meses e acompanhei bem de perto o processo do desenvolvimento final e lançamento da versão beta do Mineo, site dedicado à co-criação de produtos baseados em materiais sustentáveis (saiba mais assistindo o vídeo).

Mais empolgada ainda vejo agora as sugestões incríveis que chegam por meio da chamada criativa lançada no site. Fazer um porta tempero com lâmpadas queimadas, uma cestinha de bicicleta com fibra de coco e polvilho, um capacete dobrável produzido com borracha, polvilho e/ou poliuretano, reforçado com fibras de coco são algumas das ideias, que em breve devem ser prototipadas e testadas até virarem produtos comerciais (com os lucros distribuídos por toda a cadeia participante do processo).

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A plataforma é uma sequência quase natural de um projeto já em andamento: o Matéria Brasil, da Fibra Design, da Sistema Ambiental e da própria Engage, que se propõe a mapear e catalogar fornecedores que lidam com fibra de coco, bambu, pvc reciclado, manta de fibra natural processada, entre muitos outros materiais “responsáveis” fabricados no Brasil.

MateriaBrasil from Materia Brasil on Vimeo.

Quase na mesma época, neste final de ano, duas outras plataformas surgiram com a proposta de criar produtos coletivamente: o Asap.me e o SaiadaGaragem.me (ainda em construção). Ao que tudo indica, em 2013 veremos o crescimento e expansão das iniciativas que pretendem abrir o processo de produção e levar a lógica da colaboração a esse mercado.

Se acontecer por aqui o que rolou nos Estados Unidos, iniciativas como essas impulsionarão a existência de todo o um mercado de novos inventores. Para se ter uma ideia, o Quirky em 2012, em seu terceiro ano de atividade, movimentou por volta de 25 milhões de dólares (leia matéria sobre o Quirky na Forbes) com a venda dos produtos criados na plataforma.

Fico torcendo para que o Mineo (e as demais plataformas) sirvam para materializar invenções incríveis que estão nas muitas mentes criativas que andam por aí…

12

Dez

Biotecnologia e crowdsourcing: o mapeamento coletivo das bactérias presentes no corpo humano

Questões relacionadas ao sequenciamento genético e à biotecnologia me intrigam desde o do colégio, quando acompanhava as notícias da ovelha Dolly. Naquela época, não imaginava que cerca de 15 anos depois ia ser possível receber um pacote em casa, raspar secreções da bocheca, enviá-las pelo Correio e ter em mãos nas semanas seguintes um catálogo sobre as bactérias que habitam o meu corpo com um detalhamento e explicação sobre cada tipo de microorganismo.

É isso que propõe o uBiome, projeto de mapeamento coletivo das bactérias presentes no corpo humano, que tem o intuito de criar uma base de dados cidadã, abrir o processo da pesquisa científica, aproximar pesquisadores das “pessoas comuns”, oferecendo a elas informações úteis e relevantes sobre seu corpo e saúde. Além do diagnóstico, o projeto permite ainda a comparação, de forma anônima, dos seus dados com os dados da base total coletada. Veja mais explicações sobre como o projeto funciona no vídeo:

Além de usar o conceito de crowdsourcing em seu modo de produção, o projeto abriu a captação de recursos via crowdfunding na plataforma IndieGogo, por meio da qual espera arrecadar 100 mil dólares até o começo de janeiro de 2013. Em um mundo no qual grandes projetos da indústria farmacêutica ou do agronegócio são desenvolvidos a sete chaves, sem publicação ou depósito de informações em bancos públicos, assistir a abertura desse processo de pesquisa científica é algo fantástico! 

Mais animador ainda é ver que as startups de biotecnologia (tem uma lista delas no site scistarter) não param de surgir no Vale do Sílicio e até aqui no Brasil. A Beagle Bioinformatics,  do pesquisador paraibano Vinicius Maracajá, é uma dessas empresas que pretende abrir os processos da pesquisa científica na área de sequenciamento genético. Um de seus projetos, a plataforma NimbusGene, selecionada pela incubadora chilena StartupChile, pretende automatizar as análises dos estudos genéticos em um ambiente amigável e colaborativo. Nela, os projetos de genômica poderão ser desenvolvidos com um simples clicar no mouse.   

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Se levarmos em consideração que hoje os projetos de bioinformática demandam uma infraestrutura pesada e, por consequência, investimentos maciços, jogar os dados para a nuvem facilitará em muito a vida de quem trabalha na área e a evolução das pesquisas no geral. É a lógica da colaboração chegando onde menos se espera…

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Atualização feita em 15 março de 2013:

A Beagle Bioinformatics deve lançar em breve a plataforma de crowdfunding para projetos de genoma Dodo Funding. A lauching page do projeto já está no ar. A proposta é parecida com a da plataforma Microryza, mas esta não se limita a projetos de genoma. Coleta de dados para combater a mortalidade infantil e uma pesquisa sobre uso de armas estão na lista de projetos em busca de apoio.

07

Dez

OSJuba e a construção de uma cidade open source

Em junho deste ano, Felipe Fonseca, parceiro de trabalhos no Festival Internacional CulturaDigital.Br, Fórum da Cultura Digital e iniciativas afins, anunciou em seu blog que a cidade de Juba, capital do Sudão do Sul, poderia se tornar a primeira cidade de código aberto do mundo. Resgatando a história: a ideia é aproveitar que o país foi criado recentemente (em 2011) e vive uma situação pós conflito, para colocar em prática um modo diferente de administração pública, que leva em consideração a opinião, desejos e participação da população. O experimento é encabeçado por Stephen Kovats, arquiteto e pesquisador canadense que está à frente da r0g, agência em Berlim dedicada à promoção aberta e a transformação crítica, e acontece em parceria com organismos internacionais e iniciativas locais.

Um dos focos da discussão sobre Juba é pensar modelos de sustentabilidade econômica, com base em uma economia colaborativa. A criação de comunidades rurais, de moedas alternativas estão no horizonte, assim como foco em microfinanciamento, empréstimos peer to peer (entre pares). Tudo isso faria parte de um “Open Source Monetary System”, que permitiria um crescimento do país mais sólido e igualitário. 

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Se conseguirem implementar o que está sendo pensado, assistiremos à criação de um arranjo social completamente inovador e teremos um exemplo prático de uma série de conceitos que andam sendo discutidos há anos. 

De 11 a 13 de dezembro, Kovats retoma as discussões públicas sobre o projeto OSJuba em um encontro entitulado Media&Maker Juba 2012 Open Knowledge & Sustentainable Media Forum.  Se eu tivesse um teletransporte ou livre passe nas companhias aéreas, não perderia este encontro por nada neste mundo. Georgia Nicolau, amiga, produtora cultural, comunicadora e parceria de mil projetos, inclusive o próprio Festival Internacional CulturaDigital.Br, está colaborando no projeto, acompanha de perto, em Berlim, o desenvolvimento das ações e poderá contar exatamente o que está sendo pensado. Prometo retomar o assunto e reportar o que mais descobrir sobre o experimento. 

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Hoje rolará um “twittaço” promovido pela FOSSFA (Associação Africana de Software Livre) incentivando a criação de cidades open source na África, das 13h às 15h GMT (10h às 12h no horário de Brasília). As hashtags são #FOSSFA, #OpenSF, #OSJUBA, #MMJUBA

Deixo aqui ainda o link para o projeto The Niles, jornal que une correspondentes do Sudão e do Sudão do Sul numa tentativa de aproximar os dois países em conflito há anos.

05

Dez

Democratizando o acesso às ferramentas da inovação

Em fevereiro deste ano estive em São Francisco para participar de duas conferências sobre inovação no sistema financeiro (The Future of Money and Technology Summit e Unmoney Conference). Poderia escrever muito sobre os dois eventos, mas uma terceira experiência na Califórnia ofuscou o restante. Foi a ida ao Tech Shop, makerspace criado em São Francisco em 2006 e já presente em mais quatro cidades dos Estados Unidos. 

Há tempos ouço falar e vejo pela internet os makerspaces, fab labs, rede labs espalhados pelo mundo. Acompanhei muito de perto a criação do primeiro hackerspace no Brasil, o Garoa Hacker Clube, instalado desde 2010 no porão da Casa da Cultura Digital (e mais embrionariamente, nos idos de 2005, na sala da minha própria casa, quando Felipe Sanches e Rodrigo Pitanga, alguns dos fundadores do Garoa, viravam madrugadas lendo livros de inteligência artificial, enquanto gráficos 3D pulavam nas telas dos trocentos computadores espalhados pela casa).

Nenhuma experiência prévia, porém, diminuiu o meu encanto com o espaço criado por Mark Hatch. As muitas salas são todas equipadas com maquinários que variam de enormes impressoras a laser, impressoras 3D, todo o aparato possível para marcenaria, costura, robótica, restauração de prataria, construção de joias etc etc etc etc. 

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Um paraíso do Do It Yourserlf e impressionantemente amigável a qualquer um. A qualquer um mesmo. Tudo muito organizado, explicado, com possibilidade de cursos, mentorias e suportes diversos. As pessoas costumam deixar seus projetos de móveis, por exemplo, colados nas paredes. Assim, o próximo pode copiar, remixar e adequar a um novo formato. Não é de chorar de lindo?

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Conheci antes o Noisebridge, um dos hackerspaces mais famosos do mundo e, de fato, um lugar incrível. Mas a sensação de “que legal, mas uma pena que não nasci com essas habilidades” só desapareceu na visita ao espaço seguinte (que ainda por cima consegue manter tudo em ordem e organizado).

Esta semana, o professor da FEA/USP e sociológo econômico Ricardo Abramovay publicou em sua coluna na Folha de S. Paulo o artigo O movimento dos fazedores e o espírito do faça você mesmo, sobre o novo livro de Chris Anderson. Na carona, Leo Foletto, do Baixa Cultura, postou A “nova” revolução industrial: fablabs e hackerspaces, explicando um pouco mais como funcionam esses espaços. Acabo de ler no blog Educ-Ação, um post inteiro (The Power To Do It Yourself) dedicado ao 3RD Ward, espaço em Nova Iorque similar ao Tech Shop. E aí foi impossível não lembrar da experiência do começo do ano!

Abaixo, um vídeo-palestra do Mark Hatch, na Make Fair de 2012, no qual ele explica todo o projeto e os resultados alcançado nesses anos. Uma das maiores importâncias desses espaços é o acesso à criação de protótipos e, por consequência, a democratização de invenções. No TechShop, foram criados, por exemplo, o Square, dispositivo que ao ser acoplado ao iphone possibilita pagamento por cartão de crédito/débito, uma motocicleta elétrica de corrida que atinge mais de 300 km/hora; um mini-robô submarino capaz de chegar a até 100m de profundidade e de entrar em espaços compactos nos quais os mergulhadores não podem chegar.

TechShop: Democratizing Access To The Tools of Innovation from Maker Faire on FORA.tv