18

Fev

Open Source Fashion: a lógica do software livre aplicada à moda

Em 2010, participei de uma iniciativa idealizada por Filipe Moura, atual MetaMáquina, que tinha a intenção de levar a lógica do software livre para a produção de moda. O projeto não foi ao ar (ainda!), mas serviu para que tomássemos conhecimento de uma série de ações digitais feitas no mundo com o mesmo objetivo: o de levar a colaboração para a produção de roupas e acessórios.

Na época, a rede social de troca de referências sobre o assunto Polyvore era recém lançada e a sensação do momento nos EUA. Assim, como o LookBook.Nu, a rede que compila desde 2008 looks de fashionistas de todas as partes do mundo. O que fazia nossos olhos brilharem eram as iniciativas focadas na abertura da produção, que após muita pesquisa encontramos. Pamoyo, Open Source Jewerly são alguns desses projetos que ainda estão no ar (a maior parte não durou esses anos todos).

O Open Wear é o que mais se aproxima conceitualmente do que gostaríamos de ter feito, assim como o discurso de Susan Spencer (compilado em vídeo logo abaixo).

Openwear E-book Final by Bertram Niessen

Não consegui descobrir se o software de Susan vingou (aliás, alguém aí sabe?) ou se temos algo nessa lógica P2P dando certo em alguma parte do mundo.

De qualquer forma, fiquei muito feliz em descobrir esta semana dois projetos de crowdsourcing& moda: o Cut on Your Bias e o ZaoZao, uma espécie de plataforma de crowdfunding de Hong Kong focada em peças de roupa, lançada em 2012.

Cut on Your Bias Introduction from Louis Monoyudis on Vimeo.

Iniciativas de crowdfunding e moda são anunciadas como tendência desde 2010, mas até hoje não sei de muitos exemplos. 

Alguém mais conhece iniciativas digitais de moda e colaboração? Algo que seja, de fato, P2P? Que proponha a criação em rede, coletiva?

Agradeço referências. Seguirei acompanhando….

20

Dez

Retrospectiva 2012: a economia da colaboração

Os arranjos econômicos baseados na colaboração estiveram no centro das minhas atenções neste 2012. Na verdade, desde o final de 2011, quando fizemos o Festival Internacional CulturaDigital.Br, aqui no Rio de Janeiro, e escolhemos para a palestra de abertura o professor de Havard Yochai Benkler, já havia um prenúncio de que esse seria, para mim, o assunto do ano.

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Benkler é um dos mais importantes pesquisadores da produção colaborativa. Em seu último livro, O Pinguim e o Leviatã, ele aborda a riqueza contida nas redes de cooperação como a Wikipedia, as comunidades de software livre, as plataformas de compartilhamento de imagem, som, vídeos e conta como esse modelo triunfou em relação ao modo de produção das organizações hierárquicas e tradicionais, simbolizadas no livro pela figura do Leviatã.

Em sua participação no Festival, Benkler fez um retrospecto de como as estruturas de mercado mudaram nos últimos 30 anos e evidenciou a importância de colocar as relações humanas no centro dos processos (inclusive, no mundo dos negócios). “As pessoas se comportam diferente quando se sentem parte do time, do grupo”, disse ele.

(Abaixo, o vídeo com a palestra de Benkler, na íntegra. A fala começa no minuto 55, após a cerimônia de abertura do evento, que ocorreu no dia 2 dezembro de 2011, no Cine Odeon)

Abertura e Palestra Yochai Benkler - Festival CulturaDigitalbr 2011 from Festival CulturaDigital.Br on Vimeo.

Pode parecer óbvio para os que nasceram em meio a revolução digital, mas a noção, abordada por Benkler, de que “a sensação de pertencimento, o sentimento de que as negociações são feitas sobre base visível, clara e equânime, o prazer do convívio, o intercâmbio de ideias, a capacidade de ouvir e o poder de falar são atributos decisivos de realização humana e, ao mesmo tempo, estimulam melhores resultados nas organizações”, como bem resume o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP) Ricardo Abramovay, outro importante pesquisador do assunto, em artigo para o Valor Econômico sobre o livro de Benkler, é nova para grande parte dos setores corporativos. 

Este cenário é abordado em detalhes por Michel Bauwens, que também foi um dos palestrantes presentes no Festival de 2011, em estudo para a P2P Foundation entitulado Synthetic Overview of the Collaborative Economy — leitura obrigatória aos interessados no assunto e para os que querem entender um pouco mais sobre a economia da informação.

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Estão no estudo cases importantes como o Shopify, plataforma de criação de ecommerces, Brain Tree Payments,  plataforma que facilita pagamentos de qualquer parte do mundo via celular e internet, Zopa, rede social de empréstimo financeiro, Eggzy, rede social que conecta produtores rurais e consumidores em busca de alimentos frescos, Skillshare, site que permite o compartilhamento de habilidades para a co-aprendizagem, além de uma infinidade de exemplos nas mais diversas áreas. O que, basicamente, todas têm em comum é a inteligência coletiva no centro dos processos, a noção de que conhecimento de especialista nenhum é maior do que o conhecimento produzido em rede por uma série de pessoas. 

No livro “Muito Além da Economia Verde”, do Ricardo Abramovay, lançado este ano na Rio+20 (e cuja leitura terminei ontem e recomendo fortemente!), fica bem clara a importância que a cooperação tem na transição para uma nova economia, na qual ética e respeito aos limites da sociedade e da natureza estejam no centro das decisões.

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“A sociedade da informação em rede apoia-se em uma revolução científica em que convergem comportamentos humanos cooperativos e formas inéditas de organização do Estado, dos negócios e da vida associativa. A cooperação direta, intencional, apoiada em normas sociais claras, embora nem por isso localistas ou provincianas, é o mais importante caminho para novas relações entre economia e ética”. 

12

Dez

Biotecnologia e crowdsourcing: o mapeamento coletivo das bactérias presentes no corpo humano

Questões relacionadas ao sequenciamento genético e à biotecnologia me intrigam desde o do colégio, quando acompanhava as notícias da ovelha Dolly. Naquela época, não imaginava que cerca de 15 anos depois ia ser possível receber um pacote em casa, raspar secreções da bocheca, enviá-las pelo Correio e ter em mãos nas semanas seguintes um catálogo sobre as bactérias que habitam o meu corpo com um detalhamento e explicação sobre cada tipo de microorganismo.

É isso que propõe o uBiome, projeto de mapeamento coletivo das bactérias presentes no corpo humano, que tem o intuito de criar uma base de dados cidadã, abrir o processo da pesquisa científica, aproximar pesquisadores das “pessoas comuns”, oferecendo a elas informações úteis e relevantes sobre seu corpo e saúde. Além do diagnóstico, o projeto permite ainda a comparação, de forma anônima, dos seus dados com os dados da base total coletada. Veja mais explicações sobre como o projeto funciona no vídeo:

Além de usar o conceito de crowdsourcing em seu modo de produção, o projeto abriu a captação de recursos via crowdfunding na plataforma IndieGogo, por meio da qual espera arrecadar 100 mil dólares até o começo de janeiro de 2013. Em um mundo no qual grandes projetos da indústria farmacêutica ou do agronegócio são desenvolvidos a sete chaves, sem publicação ou depósito de informações em bancos públicos, assistir a abertura desse processo de pesquisa científica é algo fantástico! 

Mais animador ainda é ver que as startups de biotecnologia (tem uma lista delas no site scistarter) não param de surgir no Vale do Sílicio e até aqui no Brasil. A Beagle Bioinformatics,  do pesquisador paraibano Vinicius Maracajá, é uma dessas empresas que pretende abrir os processos da pesquisa científica na área de sequenciamento genético. Um de seus projetos, a plataforma NimbusGene, selecionada pela incubadora chilena StartupChile, pretende automatizar as análises dos estudos genéticos em um ambiente amigável e colaborativo. Nela, os projetos de genômica poderão ser desenvolvidos com um simples clicar no mouse.   

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Se levarmos em consideração que hoje os projetos de bioinformática demandam uma infraestrutura pesada e, por consequência, investimentos maciços, jogar os dados para a nuvem facilitará em muito a vida de quem trabalha na área e a evolução das pesquisas no geral. É a lógica da colaboração chegando onde menos se espera…

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Atualização feita em 15 março de 2013:

A Beagle Bioinformatics deve lançar em breve a plataforma de crowdfunding para projetos de genoma Dodo Funding. A lauching page do projeto já está no ar. A proposta é parecida com a da plataforma Microryza, mas esta não se limita a projetos de genoma. Coleta de dados para combater a mortalidade infantil e uma pesquisa sobre uso de armas estão na lista de projetos em busca de apoio.