Os arranjos econômicos baseados na colaboração estiveram no centro das minhas atenções neste 2012. Na verdade, desde o final de 2011, quando fizemos o Festival Internacional CulturaDigital.Br, aqui no Rio de Janeiro, e escolhemos para a palestra de abertura o professor de Havard Yochai Benkler, já havia um prenúncio de que esse seria, para mim, o assunto do ano.

Benkler é um dos mais importantes pesquisadores da produção colaborativa. Em seu último livro, O Pinguim e o Leviatã, ele aborda a riqueza contida nas redes de cooperação como a Wikipedia, as comunidades de software livre, as plataformas de compartilhamento de imagem, som, vídeos e conta como esse modelo triunfou em relação ao modo de produção das organizações hierárquicas e tradicionais, simbolizadas no livro pela figura do Leviatã.
Em sua participação no Festival, Benkler fez um retrospecto de como as estruturas de mercado mudaram nos últimos 30 anos e evidenciou a importância de colocar as relações humanas no centro dos processos (inclusive, no mundo dos negócios). “As pessoas se comportam diferente quando se sentem parte do time, do grupo”, disse ele.
(Abaixo, o vídeo com a palestra de Benkler, na íntegra. A fala começa no minuto 55, após a cerimônia de abertura do evento, que ocorreu no dia 2 dezembro de 2011, no Cine Odeon)
Abertura e Palestra Yochai Benkler - Festival CulturaDigitalbr 2011 from Festival CulturaDigital.Br on Vimeo.
Pode parecer óbvio para os que nasceram em meio a revolução digital, mas a noção, abordada por Benkler, de que “a sensação de pertencimento, o sentimento de que as negociações são feitas sobre base visível, clara e equânime, o prazer do convívio, o intercâmbio de ideias, a capacidade de ouvir e o poder de falar são atributos decisivos de realização humana e, ao mesmo tempo, estimulam melhores resultados nas organizações”, como bem resume o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP) Ricardo Abramovay, outro importante pesquisador do assunto, em artigo para o Valor Econômico sobre o livro de Benkler, é nova para grande parte dos setores corporativos.
Este cenário é abordado em detalhes por Michel Bauwens, que também foi um dos palestrantes presentes no Festival de 2011, em estudo para a P2P Foundation entitulado Synthetic Overview of the Collaborative Economy — leitura obrigatória aos interessados no assunto e para os que querem entender um pouco mais sobre a economia da informação.

Estão no estudo cases importantes como o Shopify, plataforma de criação de ecommerces, Brain Tree Payments, plataforma que facilita pagamentos de qualquer parte do mundo via celular e internet, Zopa, rede social de empréstimo financeiro, Eggzy, rede social que conecta produtores rurais e consumidores em busca de alimentos frescos, Skillshare, site que permite o compartilhamento de habilidades para a co-aprendizagem, além de uma infinidade de exemplos nas mais diversas áreas. O que, basicamente, todas têm em comum é a inteligência coletiva no centro dos processos, a noção de que conhecimento de especialista nenhum é maior do que o conhecimento produzido em rede por uma série de pessoas.
No livro “Muito Além da Economia Verde”, do Ricardo Abramovay, lançado este ano na Rio+20 (e cuja leitura terminei ontem e recomendo fortemente!), fica bem clara a importância que a cooperação tem na transição para uma nova economia, na qual ética e respeito aos limites da sociedade e da natureza estejam no centro das decisões.

“A sociedade da informação em rede apoia-se em uma revolução científica em que convergem comportamentos humanos cooperativos e formas inéditas de organização do Estado, dos negócios e da vida associativa. A cooperação direta, intencional, apoiada em normas sociais claras, embora nem por isso localistas ou provincianas, é o mais importante caminho para novas relações entre economia e ética”.