04
Dez
Inovação social: 10 ‘cases’ inspiradores (e o que aprendi com eles)
Inauguro este blog com um post sobre um tema que cada vez mais ganha a minha atenção: as tecnologias sociais. A Fundação Banco do Brasil tem um respeitável trabalho na área, apoiando há anos iniciativas das mais pioneiras do país, em sua maior parte atuantes no campo e em territórios que, no geral, recebem pouca atenção da imprensa e de financiadores. Na paralela à Cúpula Social do Mercosul, que ocorre de 4 a 6 de dezembro em Brasília, a Fundação aproveitou o discurso da integração latino-americana para juntar em um encontro nesta terça-feira representantes de fundações, institutos e iniciativas da sociedade civil que se destacam pela articulação em rede, promoção do desenvolvimento sustentável e na inclusão sócio-produtiva.
A Casa da Cultura Digital foi um dos projetos participantes da tarde de troca de experiências junto à Rede Terra (e a Unisol- Central de Cooperativa e Empreendimentos Solidários), a Coopasub (Cooperativa Mista Agropecuária de Pequenos Agricultores do Sudoeste da Bahia), a Apiwtxa – povo Ashaninka, o MNCRS (Movimento Nacional dos Catadores de Resíduos Sólidos), o Circuito Fora do Eixo, o Programando o Futuro, o Banco Popular União Sampaio e a ASA (Articulação do Semi-Árido). A Coocaram (Cooperativa de Produtores Rurais Organizados para Ajuda Mútua) deveria participar, mas devido a má condição metereológica, seu representante não conseguiu chegar a tempo de Rondônia.

Das produtivas três horas de discussões, tirei dez “lições” para quem atua na área e, como eu, vive se questionando sobre como ver a multiplicação e o crescimento de iniciativas como essas pelo país:
1. Articulação com o poder público é fundamental
Muitas das conquistas dos grupos e movimentos se dá a partir de legislações e regulações específicas. A maior parte das iniciativas presentes são protagonistas na elaboração de políticas públicas e, com isso, conseguem uma série de avanços (e/ou impedem retrocessos).
2. O setor privado não deve ser deixado de lado
Uma ampla articulação é sempre bem-vinda e deve contemplar as empresas, os institutos privados, as organizações não governamentais e as instituições da sociedade civil dos mais diversos tipos. Por meio dessas parcerias entende-se como funcionam as mais diversas estruturas e cria-se uma condição mais sólida de ação.
3. Descentralizar é necessário
A busca pela unidade e centralização já se mostrou falha. O atual objetivo deve ser o não controle e a não unidade. Multiplicar e dispersar para poder ter capilaridade e atuação orgânica é a diretriz.
4. Os jovens são extremamente importantes
São eles os mais capazes de inovar e oxigenar as redes. Para atraí-los, é necessário oferecer perspectivas financeiras, um sentido simbólico e incorporar um modo de ação mais fluído, flexível e horizontal.
5. É preciso promover geração de renda
Para que as iniciativas não dependam de patrocínios e exclusivamente de entradas externas de recursos.
6. Cooperativas são soluções
O cooperativismo tem se mostrado uma solução nesse processo de descentralização.
7. Os movimentos sociais ainda cumprem um papel fundamental
A organização sistematizada em torno de causas e temas específicos segue produzindo efeitos e trazendo avanços importantes para a sociedade. Modernizar e oxigenar essas estruturas pode potencializar ainda mais suas ações.
8. As zonas rurais e periferias do sistema são enormes provedores de soluções
A escassez gera busca pela inovação e por saídas criativas. É no campo, nas comunidades, nas favelas, nas aldeias e em territórios longe dos grandes centros e dos holofotes que soluções reais são produzidas.
9. É com o digital e a cultura que essas ações vão se multiplicar
Cruzar as expertises das diversas redes e promover entre elas a troca de conhecimentos específicos multiplicará as soluções e caminhos para um mundo socialmente mais justo e criativo. Nesse sentido, o papel das novas tecnologias e da incorporação dos valores ligados ao universo digital são fundamentais.
10. Somos todos Hackers!
Índios, agricultores, programadores, comunicadores, representantes de movimentos sociais, gestores de projetos têm muito em comum. Estão todos em busca de criar soluções com as ferramentas à mão e transformar as suas próprias realidades.
As experiências acima só comprovam que a sociedade brasileira é extremamente inovadora e inventiva, ainda que não sejamos reconhecidos por isso e que esse potencial criativo não venha das instituições e nem dos mercados estabelecidos. Que iniciativas como essa da Fundação BB contribua para mostrar os muitos Zizos (1), Izaltienes(2), Luiz (3), Benkis (4) que estão atuando por aí…
(1) Referência a Zizo Simion, da Rede Terra e presidente eleito da Unisol
(2) Referência a Izaltiene Rodrigues, da Coopasub
(3) Referência a Luiz da Silva, do MNCRS
(4) Referência a Benki Piyanko, liderança Ashaninka